Às 8h45 de sábado, o céu sobre o Parque das Árvores já estava cinza. Luciana Mendes, coordenadora do mutirão, chegou com caixas de luva, rolo de plástico preto e um megafone que quase não precisou usar — o grupo de WhatsApp da associação tinha avisado desde quinta: "vai chover, leve capa".
Às 9h30, chovia de verdade. Mesmo assim, 80 pessoas apareceram. Algumas com filho pequeno, outras com avó de 76 anos que veio "só para segurar guarda-chuva", nas palavras dela mesma. O trabalho do dia estava dividido em três frentes: pintura do muro do fundo (que pega muro de tag antiga), replantio de canteiros na entrada leste e montagem de quatro bancos de madeira comprados com vaquinha online arrecadada em abril.
Como se organizou
A Associação de Moradores do Jardim Norte começou a planejar o mutirão em fevereiro, depois que a prefeitura respondeu a um ofício dizendo que não tinha verba para manutenção do parque naquele semestre. "Ou a gente fazia, ou esperava mais um ano de banco quebrado", disse Luciana.
A vaquinha arrecadou R$ 3.200 em dez dias — suficiente para os bancos, tinta e mudas. Uma loja de material de construção do bairro doou duas latas de tinta externa verde-escuro. Um vizinho emprestou furadeira. Outro trouxe café em termo grande, "porque pintar muro molhado pede café quente", brincou.
"A chuva atrapalhou a tinta, mas uniu a gente. Quem não pintou, segurou plástico. Quem não plantou, levou ferramenta."
Esse relato é de Carlos Eduardo, 34, morador do bloco 4. Ele pintou metade do muro antes da tinta começar a escorrer com a umidade. A solução improvisada foi esticar lonas e esperar uma janela de chuva fraca por volta das 11h. Deu certo — mais ou menos. Parte do muro ficou com mancha, e a associação marcou "retoque" para o domingo seguinte, se o tempo firmar.
O que ficou pronto — e o que não ficou
Pronto: quatro bancos instalados e parafusados, três canteiros replantados com espécies nativas (indicadas por um vizinho que trabalha com paisagismo), metade do muro pintado, mural iniciado por um artista local convidado.
Pendente: segunda demão no muro, acabamento do mural (tema: aves da região), placa de identificação das plantas nos canteiros. A associação publicou lista de tarefas no grupo e pediu quem puder voltar no domingo.
Rafael Oliveira atualizou esta matéria em 11 de junho para corrigir o número de bancos (quatro, não cinco como informado inicialmente por um participante) e incluir o valor arrecadado na vaquinha.
Lições de um mutirão molhado
Conversando com quem esteve lá o dia inteiro, três coisas se repetiram. Primeiro: avisar com antecedência no grupo de moradores funciona melhor que cartaz no elevador. Segundo: dividir tarefas por cor de fita adesiva (verde = jardinagem, amarelo = pintura, azul = montagem) evitou gente parada sem saber o que fazer. Terceiro: café e pão de queijo doados valem quase tanto quanto ferramenta — a padaria da esquina mandou 40 pães às 10h sem ninguém pedir; a dona viu o movimento e apareceu.
O parque não virou praça de revista. Mas os bancos estão firmes, os canteiros têm mudas com nome, e o muro deixou de ser cinza com rabisco. Para um sábado de chuva, não é pouco.
Luciana Mendes disse que o próximo passo é marcar reunião aberta com a prefeitura para discutir iluminação e poda das árvores mais antigas — assunto que ficou para depois porque o dia já estava cheio. "Mutirão não resolve tudo, mas mostra que a gente não desistiu do parque", resumiu.