O calçamento novo ainda cheira a cimento fresco quando Marina Costa chega ao Largo São João na quinta-feira de manhã. Duas tendas brancas estão sendo montadas no canto leste da praça — são as que a administração da feira prometeu depois de anos de reclamação sobre falta de sombra. "Finalmente", diz Neuza Ferreira, 58 anos, que vende pão de queijo artesanal na mesma barraca desde 2013. "Meu queijo derretia antes do cliente provar."
A feira fechou em março quando a prefeitura iniciou a troca do piso irregular que, segundo moradores, causava quedas de idosos e acumulava poças na chuva. A obra atrasou duas semanas em relação ao cronograma divulgado, mas o secretário de Obras visitou o largo na quarta-feira e confirmou liberação para o evento deste domingo, 15 de junho.
Quem volta e quem ficou de fora
Dos 38 expositores que atuavam antes da interrupção, 34 confirmaram retorno. Os quatro que desistiram citaram, em conversas com a Cobertura, dificuldade financeira durante os meses sem venda e medo de que o público não retome o hábito de ir à praça. "A gente perdeu cliente para o mercado do bairro vizinho", disse um ex-vendedor de mel que preferiu não se identificar.
Pelo lado positivo, três novos produtores entraram na lista: uma horta urbana que vende temperos em vasos, um casal que faz geleia de frutas da estação e um artesão de cerâmica que mora a seis quadras dali. A associação que organiza a feira — formada por oito expositores antigos — disse que a meta é voltar aos 38 até setembro.
"Domingo sem feira parecia rua morta. As crianças não tinham onde correr, os velhos não tinham onde conversar. Não é só compra — é encontro."
Esse comentário é de Seu Geraldo, 71, aposentado que vai ao largo todo domingo desde que a feira foi criada, em 2011. Ele não compra muito; senta no banco da praça e observa. Na entrevista, pediu para a reportagem mencionar que o banco da esquina norte ainda está solto — "alguém pode cair". A prefeitura disse que vai verificar na segunda-feira.
Música, horário e regras novas
Pela primeira vez, haverá apresentação de um grupo de samba de roda local das 10h às 11h30. O som não pode passar de 60 decibéis, segundo regulamento interno aprovado em assembleia dos expositores no mês passado — uma resposta a queixas de moradores de um prédio na Rua das Acácias que reclamaram de barulho nos últimos dois anos.
Horário oficial: 7h às 13h. Entrada de carro na praça continua proibida aos domingos, como durante a feira antiga. Cães devem ir de coleira; isso não mudou, mas agora tem placa na entrada leste (antes só tinha verbal de quem montava barraca cedo).
Na véspera da reabertura, a expectativa mistura alívio e cautela. Quem depende da feira para renda quer movimento; quem mora no entorno quer menos barulho depois das 12h. A associação instalou caixa de sugestões física — papel e caneta — ao lado da tenda de informações. "Se der errado de novo, pelo menos desta vez vamos ouvir antes", disse o presidente interino da associação, que prefere não dar entrevista longa até ver o domingo acontecer.
Marina Costa atualizou esta matéria na sexta-feira, 13 de junho, para incluir o número confirmado de expositores (34, não 32 como divulgado inicialmente pela associação) e o horário exato da apresentação musical.